Blog do Sabones - Expediente

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Cultura: "Os sertões e a identidade do povo brasileiro"

Mais uma vez, disponibilizamos um texto referente aos estudos na Universidade Federal de Juiz de Fora, no qual tive a oportunidade de ler e discutir um importante tema da formação da sociedade brasileira. Convido para uma interessante leitura e relatório acerca do tema da guerra de Canudos e o cenário político e social do Brasil no final do século XIX e a busca da identidade "tupiniquim".

Imagem ilustrativa
A partir do livro de Euclides da Cunha, "Os sertões" que tem como cenário central o povoado de Canudos, levantado e surgido no sertão baiano, no final do século XIX, tem a possibilidade da discussão da nacionalidade brasileira daquela época ou no caso de sua construção em virtude de que os textos do autor eram enviados aos jornais, em formatos de matérias e consumidas pela população das grandes cidades brasileiras.

Desta forma, pode-se perceber que talvez tenha sido um dos primeiros momentos em que se discutiu nacionalidade brasileira com informação ao mesmo tempo, ou seja, distribuída em todos os locais. Pensando mais sobre o texto em si e como ele pode impactar a questão da nacionalidade, aplica a ideia de “dois brasis”, brasis esses que tem uma diferença não na geografia, clima ou qualquer aspecto material aparente, mas, uma grande diferença na temporalidade em que aquelas pessoas vivem ou sobrevivem, o tempo da simultaneidade (tempo do jornal que apenas corre), contudo era o tempo do litoral, de um Brasil que acabara de declarar liberdade aos escravos e proclamar a república.

Tempo este que tem o Exército como grande personagem pela atuação nos fatos apoiando os abolicionistas, exibindo o título de vencedores da guerra do Paraguai e ainda na liderança no movimento de tornar o Brasil numa República, extinguindo a Monarquia. Contudo, os militares eram respeitados e mostravam condições de governar e determinar o caminho para a formação de uma nova identidade do “povo brasileiro”.

Nesse mesmo tempo do litoral que a elite brasileira reconhecia o mestiço (fruto de miscigenação entre raças) como o representante fiel do perfil “tupiniquim”, mas que mesmo os líderes desta pátria, em sua maioria descendentes de brancos (europeus), classificando o mestiço de sub-raça (mestiços não tem habilidades intelectuais e seria incapaz de desenvolver grandes feitos).

Culturalmente, seguia de maneira que a instrução, a “bagagem cultural” era o principal atenuante para classificar quais pessoas eram ou não mestiços. Exemplo disso, na mesma época, Machado de Assis.

Mulato e escritor de respeito em toda a sociedade. O fato da cor da pele de Machado de Assis não o classificou como mestiço, pois sua capacidade intelectual que era levada em consideração. O Brasil mudava e começava a querer trilhar com os próprios passos, com liderança de brasileiros, mas que ainda estavam intimamente ligados às ideologias e filosofias européias.

Foi com esse cenário que Euclides da Cunha e outros jornalistas chegam a Canudos, que pela primeira vez, o país testemunhava uma cobertura diária de um acontecimento estritamente nacional, para o qual foi dada tamanha importância que jornalistas de diversas instituições foram encaminhados como correspondentes, e os jornais que assim não o fizeram, quase cotidianamente transcreviam reportagens sobre o evento.

A imprensa era utilizada em todo o país como antecedente das ações do exército, e a República recém inaugurada, necessitando do respaldo dos brasileiros, dizia fazer tudo em nome da opinião pública.

Foram quatro batalhas até a derrota de Canudos. Foi o primeiro evento da história brasileira acompanhado por correspondentes da imprensa
 (Imagem: internet)
Assim, quando as notícias de Canudos começaram a se espalhar pelo país, mesmo sem um conhecimento exato da região onde se localizava o conflito, as pessoas passaram a acompanhar os ataques, por meio da imprensa. Diante de tamanha mobilização, e da pobre estrutura para a circulação e a averiguação das notícias, não é de se estranhar o registro de muitos boatos que circulavam simulando a narrativa de fatos reais.

A partir daí, depararam com o tempo do sertão. Por lá, os canudenses que representavam o sertão não eram desse tempo e sim de um tempo religioso baseado principalmente nas ideias do líder do movimento Antonio Conselheiro que pregava o juízo final, que segundo ele chegaria em um ano aproximadamente, então, eles deveriam apenas buscar a salvação.

Era uma comunidade sem uma identificação, sertanejos, jagunços, enfim nordestinos que acreditavam e confiavam em Conselheiro e, talvez a guerra de canudos tenha sido visto por aquelas pessoas, cerca de 26 mil moradores como a expressão inicial do fim dos tempos.

Estimava uma população com mais de 25 mil habitantes em Canudos (Imagem: internet)
Portanto, ao analisar esses “dois brasis” argumenta-se de que o Brasil apesar de ter muitas semelhanças tinha uma diferença tão significativa que poderia dividi-lo entre litorâneos e sertanejos. Lembrando que Euclides viveu um momento onde as teorias racialistas estavam em alta no mundo e o mesmo era adepto a tais teorias que circundavam o seu mundo.

O autor acreditava que as raças mestiças eram ruins e que as raças determinavam a cultura, mas, em seu texto ele deixa transparecer que o sertanejo que é uma dessas misturas tornou-se com o tempo uma raça e mais do que isso, uma raça forte pelo poder de adaptação que eles tiveram principalmente a geografia e ao clima inóspito, ou seja, essa certa admiração dele só demonstra as incertezas as quais o mesmo não consegue resolver com relação as questões de raça e cultura, pelo fato de seu arcabouço teórico também não ser capaz de resolver tais questões.

A partir disso e dos jornais, provavelmente, a sociedade brasileira percebeu que tínhamos um estado que unia todos como o Brasil mas que ainda faltavam muitos elementos para tronar uma nação.  

Uma comunidade imaginada:

Pode-se declarar também, com base no texto de Benedict Anderson, que o sujeito ao ter acesso ao jornal de um determinado dia, tem no tempo um elemento catalisador para conceber uma comunidade imaginada com o loco social.

Nesse viés, pode-se citar, para maior entendimento, uma cena do filme Rede de Intrigas (Network, de Sidney Lumet, 1976), em que o personagem Howard Beale, um jornalista decadente colocado em um novo programa por conseguir audiência ao se rebelar na TV ao vivo, começa a chamar cada homem e mulher que o assiste a se libertar do torpor e gritar contra a violência, a inflação, o desemprego e o medo da guerra nuclear.

Beale, em transmissão direta, pede que os telespectadores coloquem a cabeça na janela e gritem: “Eu estou louco como o diabo e não vou mais tolerar isso”. Por todo o país, as pessoas respondem ao chamado do âncora desvairado, gritando em suas janelas e sacadas e espalhando as palavras do “profeta louco”.


Nesta cena, é cristalizado o conceito empregado por Benedict Anderson. Neste caso, o veículo de informação evolui do jornal para a plataforma televisiva, reafirmando ao telespectador as suas raízes visíveis do mundo imaginado na vida cotidiana, como também o reassegura dos seus anseios e revoltas mediante o efeito de realidade intensificado na TV direta ao sincronizar.

Um comentário:

  1. O livro "Os Sertões" é hermético, mas prazeroso de se ler, porque por meio de sua leitura, compreendemos o Brasil atual. O que se passou anos atrás, como aquela comunidade foi interpretada de forma errada, e como a "corrupção" existe desde os primórdios dos tempos.

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