Blog do Sabones - Expediente

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segunda-feira, 28 de março de 2016

Exposição de SJN é cancelada

O Blog do Sabones disponibiliza a matéria assinada por este jornalista no jornal Voz de S. João, edição nº 5450 de 26 de março de 2016. Destaque da página 03.

Uma das entradas do parque em São João Nepomuceno
No último fim de semana, o prefeito Célio Filgueiras Ferraz em entrevista para veículos de comunicação local informou que não terá a tradicional Exposição Agropecuária de São João Nepomuceno que seria realizada no mês de maio em sua 43ª edição.


Prefeito Célio Ferraz
Será o segundo ano consecutivo sem uma das maiores festas do município que comemora a data de aniversário e do Santo Padroeiro da cidade. O prefeito disse que tanto o ano passado e este ano, as condições financeiras do município perante a atual situação econômica do país e as exigências feitas pelo Corpo de Bombeiros para reformas e determinações a serem feitas no Parque de Exposições Hercílio Ferreira foram os motivos pela não realização do evento. “Para as reformas, instalações e demais exigências feitas pelos Bombeiros trariam gastos no valor de cerca de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) aos cofres públicos municipais, isso além da organização do evento que não é barata; a Prefeitura não tem condições financeiras para organizar. O que o Corpo de Bombeiros está exigindo eu acho que é jogar dinheiro fora e não tenho dinheiro pra isso! É um absurdo que vem exigindo em toda Minas Gerais”, explicou.

A assessoria do 4º Batalhão dos Bombeiros Militares (BBM) de Juiz de Fora, responsável pelo atendimento à cidade, informou que o local precisa das medidas indicadas pelo setor de Vistoria e Prevenção e que sem elas o parque de exposição não está liberado para realizar eventos. Isso ocorre desde uma vistoria em novembro de 2014.
Pátio do Parque de Exposições Hercílio Ferreira - SJN
Em contato com a Secretaria Municipal de Obras e a Assessoria de Comunicação da Prefeitura foram passadas a nossa equipe as exigências do projeto. São elas: Troca de toda a parte elétrica do parque de exposições, retirada da antiga e a instalação de cabos isolados e encapados em todo o parque, instalação de um transformador, etc; manutenção e consertos da rede de esgoto e água; aplicação de acessibilidade em todo o parque (evitando degraus, banheiros adaptados, rampas, corrimão); sinalização (indicação de saída, iluminação, placas), rotas de fugas, portões com aberturas para a parte externa do parque, extintores de incêndio, adaptações, reformas e atualizações de medidas das baias dos animais. 

Um orçamento feito em março de 2015 pela Secretaria Municipal de Obras para a compra dos materiais da rede elétrica foi apresentado a nossa reportagem, o valor somado é de R$ 142.546,60 (cento e quarenta e dois mil quinhentos e quarenta e seis reais e sessenta centavos). “Esse valor é apenas do orçamento feito para a compra dos materiais para uma das exigências na parte elétrica, sem contar as outras determinadas e os prestadores de serviços”, comentou a diretora da Secretaria de Obras, Suelem Alves.

Rede elétrica e demais estruturas terão de ser trocadas
e reformadas
Além da verba para as exigências do Corpo de Bombeiros, a Assessoria da Prefeitura passou-nos os valores da organização do evento. Com base nos valores de 2014, último ano de realização da Exposição na cidade, somente para a infraestrutura (dois palcos, sonorização, iluminação, energia elétrica, banheiros químicos, tendas), impostos (ECAD), propagandas (impressos, rádios, faixas), animais (alimentação, transporte, veterinários, premiações), equipe de apoio (seguranças, camarim, banheiro, eletricistas de plantão) o valor gira em torno de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais). Além destes gastos, as contratações de bandas para os shows durante os 10 dias de festa. Em 2014, por exemplo, foram mais de 40 shows, sendo locais, regionais e nacionais com um montante aproximado de R$ 250.000,00 (duzentos e cinqüenta mil reais). Contudo, os valores citados para atender as exigências, a organização e a contratação de shows somam R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais).

O prefeito ainda comentou que no ano passado esteve com alguns deputados na Assembleia Legislativa em Belo Horizonte para resolver o assunto. “Conversei com os deputados e eles assumiram um compromisso comigo de levar ao governador Fernando Pimentel uma emenda de projeto do artigo para que as cidades onde não tem um Corpo de Bombeiros, que a Defesa Civil liberasse as festas. Consultamos por lá o jurídico e disseram que é viável e acredito que seria o caminho pra gente realizar a exposição”. O prefeito disse também que acha exagerada as determinações para o projeto e que as mesmas deveriam ser revisadas.

Entrevista do Prefeito Célio Ferraz para o Plantão Fatos Net

Reflexos no comércio e com artistas

A Exposição acontece em São João Nepomuceno desde o ano de 1972 e com esse cancelamento será a terceira vez que não é promovida. A primeira vez do seu cancelamento foi em 2009, pela prefeita Dra Edmea Moreira Machado, e o motivo não foi uma exigência do Corpo de Bombeiros e sim, a crise mundial que atingia os Estados Unidos e Europa. Na época, a Prefeitura decidiu economizar gastos com receio dos reflexos da crise ao país e a cidade.

Comércio terá perdas com o cancelamento da Exposição.
Rua Cel José Dutra, centro, SJN
Nossa equipe esteve em contato com pessoas de diversas áreas de atuação que direta ou indiretamente são atingidas com o posicionamento de cancelamento da Exposição. Uma delas foi o ex-presidente da Associação Comercial e Empresarial de São João Nepomuceno (ACE), associado e empresário no ramo de atacado, Álvaro do Carmo que entende a postura de economizar por parte da Administração, mas por outro lado cita a preocupação com as áreas que podem ser atingidas. “A economia é justa, mas qual o prejuízo que pode causar em diversos sentidos? No lazer, comércio, indústrias, agricultores, oportunidades de negócios, porque é a chance de uma mostra de nossos produtos”. 

Álvaro comentou sobre o risco de manter por mais tempo a não realização do evento na cidade. “Devemos caminhar para frente, se não der, daí estacionamos, mas mantemos o foco. O que não pode é regredir e parar com a nossa tradição. A Exposição de São João é uma das mais tradicionais da região. Eu mesmo antes de morar aqui já ouvia falar dessa exposição e de Leopoldina, eram as mais famosas. A minha preocupação é perder as coisas pontuais, pois a exposição é referência e a comunidade, o comércio, vestuário, calçados são prejudicados; e devemos ver também o consumo por parte de um grande acúmulo de pessoas no parque e fora dele em barracas, parque, bares, restaurantes e hotéis”.

Calçadão SJN
O ex-presidente da ACE comentou que os cancelamentos de 2009 e 2015 prejudicaram o comércio causando quedas nas vendas. O mesmo foi comentado pela comerciante da área de vestuário e calçados, Maria Aparecida de Souza que lamentou a não realização do evento. “Para nós do comércio não é uma boa, pois é uma ótima oportunidade para vendas em meu segmento. A época de exposição é quando começa a fazer frio e as pessoas vão às lojas para comprar calças, jaquetas e botas e aproveitam para renovar o guarda-roupa para curtir a festa”. 

Maria Aparecida ainda explicou que nos anos de 2009 e no ano passado que não tiveram o evento sentiu a queda de vendas. “Em 2009 foi a primeira vez que aconteceu e foi um susto. Não sabíamos como agir e tivemos muitas mercadorias encalhadas no estoque; no ano passado, o movimento do comércio já estava devagar, e nem tínhamos tanto estoque por causa disso, mas contávamos com a Expô pra dar uma melhorada na venda”. Já a comerciante do ramo de acessórios e papelaria Kyvia Santos analisou como certa a posição do cancelamento diante dos gastos públicos. “Pra mim foi uma decisão sábia, não apoiando lado algum da política em nossa cidade, mas seria totalmente desnecessário gastar uma quantia alta para as reformas do parque segundo o que o corpo de Bombeiros exigiu. Nossa cidade tem suas prioridades. Não acredito que vai prejudicar o comércio de forma alguma, ano passado não tivemos a exposição e todos sobreviveram".

Ainda com Álvaro do Carmo da ACE, o empresário fez uma importante observação sobre as exigências do Corpo de Bombeiros. “Estamos numa crise sentida e vista por todos, daí precisamos agir e vem esse cancelamento da exposição. A interdição ou notificação do parque já teve tempo para arrumar, pois no ano passado não teve a festa pelo mesmo motivo. Não teria como ter ajustado aos poucos, gastando em parcelas para as reformas?”, perguntou.

A nossa equipe buscou uma resposta para esse questionamento e a informação do diretor do departamento de Contabilidade, Prestação de Contas e Convênio, Leonardo Araújo Ribeiro é que a obra só poderia ser feita em sua totalidade, não por etapas. Vale lembrar também que o parque de exposições já foi alvo por algumas vezes de atos de vandalismo e furtos nos últimos anos, sendo alguns deles fios de cobres e refletores.
Local está interditado e notificado desde 2014
Banda Cidade Mídia
O músico e produtor musical da banda Cidade Mídia, Thales Vasconcelos disse de como isso pode afetar a classe artística. “Fico muito triste por mais um ano não termos a Exposição de SJN. Nossa cidade não tem quase nada de entretenimento, shows, parque de diversões, etc. Temos tantos talentos musicais que ficam esperando uma "janela" para divulgar seus trabalhos em um evento de grande porte com estrutura e também do movimento financeiro que circula em uma semana de evento, trazendo pessoas de fora e nós mesmos daqui, movimentando assim bares, lojas, mercados, etc. Mas mesmo assim respeito a posição do prefeito. Só lamento não ter outro jeito”, concluiu.

Ainda na área artística, a artesã Maria Lila Caçador também lamenta o cancelamento. “Muito triste, vamos ficar sem mais um evento. A exposição Agropecuária
Artesanato
é de suma importância para o município. Como recebemos muitos visitantes, vários setores de nossa cidade são beneficiados, o dinheiro circula e o fluxo de vendas aumenta”, exemplificou e também comentou do artesanato na festa. “Quanto ao espaço para o artesanato, é uma forma de mostrar nosso trabalho, são poucas vendas, mas uma ótima oportunidade de divulgação. É uma pena porque temos trabalhos bacanas na ARTECA e são poucos valorizados, acho que São João não tem a cultura de comprar artesanato, tipo "santo de casa não faz milagres".



Por Márcio Sabones
Fotos: Márcio Sabones

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