Blog do Sabones - Expediente

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sábado, 21 de janeiro de 2017

Especial: Bloco do Barril

A origem, os desfiles, as rainhas, curiosidades, evolução, a caipirinha, preocupação e carnaval (Foto: Portal SJ Online)
A história de um dos maiores eventos carnavalescos da região começou em 1973, quando os irmãos José Geraldo e Flávio Ferraz junto aos amigos tiveram a ideia de elaborar um desfile caracterizado no centro de São João Nepomuceno.
Contudo, um pequeno barril era puxado num carrinho de mão e todos os componentes (aproximadamente 30 pessoas) com roupas e adereços femininos desfilaram naquela que seria a primeira edição do Bloco. A brincadeira, segundo nossa pesquisa há alguns anos com Keco Pinto, uma das rainhas eleitas do bloco e membro da Associação começaria partindo da casa do Sr Gené e Dona Cirene (pais de Zé Geraldo e Flávio) localizada na Rua Nazareth (Rua do Sapo), centro da cidade.

Rainhas: Geraldo Rabello (1995), Zé Heleno (2001) e Pedro (2016)
Naquele ano, a turma fez o trajeto pelas ruas centrais de São João e depois de duas voltas deram parada no Baile de Carnaval do Novo Clube Trombeteiros de Momo e por lá coroaram como musa do Bloco, Marluce Henriques Fajardo, hoje considerada a 1º Rainha do Barril. Com o passar dos anos, o bloco foi desenvolvendo, ganhando criatividade e tornando um evento tradicional da folia são-joanense, e em 1977 acontece a coroação da 1º Rainha eleita, Keco Pinto. Na sequência, por todos os anos, uma nova monarca tomava posse e o número de foliões multiplicava à medida que o Bloco do Barril iria tornando famoso e glamuroso.  José Geraldo sempre ficou responsável em "colocar o bloco na rua", mas com sua mudança em 1978 para São Paulo fez com que a Rainha eleita assumisse a responsabilidade de organizar o Barril para o ano seguinte, fato repetido até hoje. No início, o nome era Rainha Garbosa e somente anos depois passou a ser Rainha do Barril.

Desfile: Eleições e premiações

O "Bloco do Barril" acontece na segunda-feira de carnaval, a partir das 17 horas, com concentração na Avenida Zeca Henriques até a Praça da Estação Rodoviária, centro de São João Nepomuceno. Ele chegou a desfilar com um número superior de 25000 foliões, e atualmente registra um número abaixo de 10 mil pessoas, devido transformações tanto dele e do carnaval da cidade (item explicativo no quadro das fases).

A escolha da próxima Rainha ficava para a atual monarca, que por convite e ou interesse de alguns candidatos acontecia a sucessão. Durante décadas, amigos e até mesmo pessoas com poucas intimidades entregaram as faixas e as responsabilidades de organizar o bloco do ano seguinte. A partir do carnaval de 2008, com a criação da Associação do Bloco do Barril, um novo regulamento para a eleição da rainha. 

Desfile do bloco na Av. Tancredo Neves (Foto: Portal Fatos Net)
Ao término do desfile, as ex-Rainhas (trajadas ou montadas) escolhem a próxima monarca em votação aberta no microfone. Além das rainhas, são eleitas: Miss Barril, Embaixatriz do Turismo (turistas ou são-joanenses que moram em outras cidades); e a ex-Rainha mais bela (produzida) leva o “Troféu Kassinho”, (Rainha 1984) que faleceu na década de 90. 

Kassinho foi uma das mais criativas e motivadoras rainhas do bloco, com inovações e graça. O Bloco premia os grupos de fantasias masculinos, femininos e mistos e até o carnaval de 2014 fazia a distribuição grátis de caipirinha (cerca de 1500 litros). Desde sua primeira edição em 1973, a tradicional caipirinha em um barril era degustada por foliões do bloco. 

Distribuição da caipirinha aconteceu até o desfile de 2014
Com o passar dos anos, a quantidade em litros da bebida foi aumentando, assim como o número de pessoas nos desfiles, e a sua distribuição gratuita era alvo de críticas e reclamações, pois um grande número de pessoas embriagadas atendidas no Pronto Socorro da cidade, fator preocupante. Diante desses fatos e também de entender que a embriaguez era causadora de brigas e ocorrências policiais graves (facadas, tiros, etc), a juíza da Vara da Infância e Juventude da Comarca de São João Nepomuceno, Dra Flávia Vasconcelos decretou no ano de 2015, a Portaria nº 01/2015/GAB que proibia a distribuição gratuita da bebida durante o desfile. Desde então, o Bloco do Barril não faz a distribuição da caipirinha, apenas desfila com o Barril de 2 mil litros vazio para simbolizar a agremiação.

Fases do Bloco do Barril

Em conversas e entrevistas com amigos, parentes e de algumas pessoas envolvidas com o carnaval, citamos algumas particularidades de cada fase do Barril e o carnaval:

1º fase: 1973 até 1984: de sua fundação até a entrada de Kassinho como Rainha
No início, era apenas uma brincadeira de amigos, coisa de 30 pessoas e chega ao início dos anos '80 com mais de 1000 foliões. Até 1981, o título era Rainha Garbosa e somente depois Rainha do Barril. Tinha uma proporção menor de pessoas e por isso uma identidade tipicamente são-joanense. As músicas ficavam por conta de sambas enredos (RJ) e marchinhas. Força do carnaval de Clubes e Escolas de Samba.

2º fase: 1985 até 1991 – Glamour, Turma do Funil e fantasias
O Barril conhece uma Rainha histórica, Kassinho Souza, eleito em 1984. Ele inovou o Barril em vários aspectos. A obrigatoriedade do uso de tamancos plataformas para pretendentes e ex-rainhas, carro alegórico para a realeza, perucas diversas, cores, vestidos caricatos etc. 

A brincadeira começa a tornar o grande atrativo do carnaval são-joanense junto às Escolas de Samba e o carnaval de clubes, e prendia a atenção da cidade para deslumbrar as beldades que desfilavam pelas ruas do centro da cidade. Tonho Machado (Rainha 1986) foi a primeira Rainha a desfilar com um carro de som (espécie do que seria hoje o Trio Elétrico). Milhares de homens e mulheres usando figurinos contrários. Nesse período, pode-se dizer que cerca de 90% das pessoas desfilavam fantasiadas. Os turistas em sua maioria eram de parentes ou de são-joanenses que viviam em outras localidades. A presença da Turma do Funil (Niterói-RJ) que todos os anos era uma atração a parte, com a sua bateria e cantos dos mais famosos e animados sambas de enredo puxando o bloco e fazendo as tardes de carnaval na Praça Cel. José Brás.

3º fase: 1992 até 2000 – O axé, o fim dos carnavais de clube, o inchaço do Barril
O início de um novo carnaval em São João Nepomuceno. O carnaval de rua. Contestado por uns e adorado por outros na época. A cidade foi uma das primeiras a utilizar e experimentar esse estilo em Minas Gerais. O estilo baiano de comemorar a grande festa de momo trouxe o axé como o ritmo oficial da folia e milhares de turistas curiosos. Um novo conceito para aquela cidade que projetava nas suas Escolas de Samba, o “jeitão” Rio de Janeiro de produzir o carnaval, e os salões com marchinhas e os hinos dos clubes. 

Existiu, é lógico, resistência, mas nada que impedisse o carnaval de rua, que nos próximos anos extinguisse os bailes. O turismo aumentou, mas não necessariamente de parentes, como vinha acontecendo há anos. Nossa cidade começa a receber um número de visitantes acima do esperado. O Barril, dono de um ibope positivo é abraçado por esses novos foliões. De um lado, o bloco começa a "bater recordes" no número de pessoas. Isso causa uma maior divulgação do carnaval e o comércio local tem uma grande oportunidade de faturamento. Turistas e até mesmo cidadãos de cidades vizinhas deslocavam para participar do Barril na segunda-feira. Cidade com super lotação. 

Por esse motivo, o nome São João Nepomuceno é confundido ao carnaval. De outro lado, a perda, aos poucos, da identidade são-joanense. Fato que existe até os dias de hoje, na procura de um carnaval satisfatório.  Eis o problema. A ideia central do Barril é travesti de mulher. Trazer para o carnaval sua criatividade e de preferência, glamour! O nosso carnaval começa a receber muitos turistas, até que demais e a perder a essência.

4º fase: 2001 até 2012: O Funk, os xixi’s, o som automotivo, a descaracterização, a Associação Bloco do Barril e a violência
Em cena o funk carioca. Esse ritmo envolvente que nasce nos morros do Rio de Janeiro e entra na disputa musical do carnaval com o axé, samba e até os sertanejos. Os resistentes do início dos anos 90 pedem o axé, ao invés do funk. Outros defendem o funk, ou melhor, a maioria e daí a chegada da “Turma do Bonde do Tigrão” começou a invadir a praia dos foliões e “martela, o martelão!” Depois a Eguinha Pocotó, Vai Lacraia, Créu, etc. Em 2005, a Praça Cel José Braz, deixa de ser palco dos carnavais da cidade Garbosa que vai para a Praça da Estação. Além disso, o som automotivo invade a cena, e dezenas de carros com potentes alto falantes eram sensações nas ruas e praças. 

O Bloco do Barril acompanha essas mudanças e o funk também é tocado no seu trio elétrico, além dos carros que ficam estacionados na concentração, distraindo muitos foliões que chegam a perder a saída do bloco. Atualmente, a permissão desse ritmo em nosso carnaval é restrita, devido a descaracterização e os problemas (brigas) geradas em anos anteriores. Em 2010, a Câmara dos Vereadores aprovou uma lei para a proibição das músicas do funk e também sons automotivos nos circuitos do carnaval. A Prefeitura além de gastar uma boa verba com segurança, fiscais para a festa, ainda tem de contratar vários banheiros químicos pela demanda dos “xixi’s”, outro sério problema com a quantidade de foliões. No ano de 2007, as ex-rainhas do bloco abriram a Associação do Bloco do Barril e com ela, discutir prováveis mudanças para o bloco, como por exemplo: A escolha da próxima rainha em eleição aberta no microfone no palco pelas ex-rainhas e a atual, analisar a configuração do bloco e incentivar os foliões para fantasiar, etc.

Surge o abada do Barril, uma maneira viável para a participação de casais e até mesmo crianças, sem correr algum risco de pisoteio e brigas. A primeira ocorrência com grau de grande perigo no carnaval de São João Nepomuceno aconteceu no Carnaval de 2012, quando jovens dispararam tiros contra outros rapazes no calçadão da cidade, no instante em que muitas pessoas assistiam ao desfile, e alguns turistas foram atingidos na mão e nas pernas. Não teve vítima fatal, os tiros pegaram de raspão e a causa poderia ser uma “rixa” entre moradores de bairros da cidade, e os turistas atingidos não teriam relação com esse conflito.
A partir daí, o carnaval de São João Nepomuceno e principalmente o Bloco do Barril passam a ter uma imagem negativa pela mídia e redes sociais. Organizar carnaval na cidade passa a ser uma difícil missão.

5ª fase: 2013 até hoje: Diminui o número de foliões, medo da violência e resgate do Carnaval
Diante da imagem negativa do ano anterior, o carnaval são-joanense passa a perder número de visitantes para as cidades vizinhas, como Mar de Espanha, Visconde do Rio Branco, Descoberto  e Rio Novo. A Praça Cel José Braz volta a ser palco do carnaval são-joanense em 2013. A Comissão de carnaval não permite o funk e sertanejos nos bailes de rua. 

A tentativa é fortalecer o samba e as marchinhas para resgatar o carnaval da cidade, mas o número de foliões para a festa e Momo cai em grande número. Somente na segunda-feira da folia, dia do Bloco do Barril um bom número de pessoas nas ruas, mas mesmo assim inferior ao das duas décadas passadas. O tradicional Baile do Hawai do Clube Campestre Democráticos acaba depois de décadas e para antecipar o sábado de carnaval, a Prefeitura lança o baile do Bloco Sassaricando e nas tardes de carnaval, o Samba na Matriz, ambos na Praça da Bandeira – Matriz (ambos até 2016). 

O medo dos moradores e turistas também são causadores dessa diminuição, pois os carnavais registraram ocorrências de destaque com tentativas de homicídio (2014 e 2015) e um homicídio (2013). Diante de ocorrências, reclamações, pedidos e a Portaria 01/2015/GAB proibiu a distribuição gratuita de bebida alcoolica no carnaval. Mesmo assim, o Barril desfila nas ruas do centro de São João Nepomuceno e diminuindo gradativamente o número de participantes. A tradição e o objetivo de eleger a nova rainha e tentando na medida do possível convidar as pessoas para fantasiar continuam acontecendo.

Lista das Rainhas do Barril – São João Nepomuceno MG

1973 – Marluce Fajardo Henriques (Homenagem Especial)
1977 – Keco Pinto
1978 – Geraldo Oliveira
1979 – Keco Pinto
1980 – Flávio Ferraz (Homenagem especial: Adil Pimenta, Rainha do Centenário da Cidade)
1981 – Emílio Sachetto Vitói
1982 – Sérgio Pereira
1983 – Dione Paes
1984 – Kassim Souza
1985 – Anderson Henriques “Delega”
1986 – “Tonho Machado”
1987 – Robinho Itaborahy
1988 – Sérgio Furiati
1989 – João Carlos Lélis Leite
1990 – Humberto Sachetto “Bezé”
1991 – Roberto Thomaz “Marreco”
1992 – Nem Sachetto
1993 – Carlos Torres “Naninho”
1994 – Jacques Barbosa Filho
1995 – Geraldo Rabello
1996 – Gláucio Souza
1997 – Hedmílson Sanábio
1998 – André Manzo
1999 – Marlos Itaborahy
2000 – Heverson Sanábio
2001 – José Heleno Alvim
2002 – Jeomar Vidal
2003 – Marcelo Fam
2004 – Anysio Estevão
2005 – Márcio Sabones
2006 – Gustavo Araújo
2007 – Ricardo Pereira
2008 – Marcelo Antonucci “Pitico”
2009 – Handerson Sanábio “Maninho”
2010 – Gabriel Loures
2011 – Samir Simões
2012 – Pedro Augusto Rezende
2013 – Antônio Furtado
2014 – Rafael Monteiro
2015 – Luciano Oliveira “Tourão”
2016 – Pedro Paulo Mendonça  
Márcio Sabones

Fotos: Arquivo 

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