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Imagem: Internet |
Diariamente acompanhamos os
noticiários que insistem em mostrar prisões, apreensões, rixas, mortes e total
descontrole e desperdício de vidas de homens, mulheres, jovens, adolescentes,
crianças e até idosos com envolvimento no tráfico e no uso compulsivo de
drogas.
Não é necessário estender no assunto, pois a realidade está estampada
na cara da sociedade que temerosa assiste o aumento da violência nos últimos
anos, em todo o Brasil, e que segundo a própria Polícia Civil, Militar ou
Federal, na maioria dos casos, tem relação direta com as drogas.
Em São João
Nepomuceno, por exemplo, com os dados recolhidos por nossa reportagem com o
subtenente Rosseti, comandante da 136ª Cia de Polícia Militar, numa entrevista
no mês de setembro desse ano, na ocasião de uma matéria especial sobre
Segurança Pública, era nítido observar a crescente violência na cidade de 2011
até junho de 2016, épocas que os números registravam: Ano 2011 (Homicídios consumados: zero; Furtos: 251; Roubos: 08). Ano 2015 (Homicídios consumados: 04;
Furtos: 329; Roubos: 37). Ano 2016
“até junho” (Homicídios consumados: 08; Furtos: 144; Roubos: 16).
“Boa parte do
aumento na criminalidade em São João se dá pela entrada de muitas drogas e em
especial, o aumento de usuários de crack. Estes, infelizmente perdem o total
controle de suas vidas. Desesperados e na falta de dinheiro acabam cometendo
furtos, roubos para manter o vício. A questão de homicídios, muitos que estão
sendo investigados são detectados em confrontos entre grupos de bairros rivais
e desavenças, tanto pelo ponto e a dívida de drogas”, explicou o subtenente.
Diante dessa realidade, nossa equipe conversou com três pessoas. Duas delas são
voluntárias em diferentes grupos de recuperação de usuários de drogas e álcool,
e a outra, um ex-usuário de crack. Os diálogos servem para entender, conhecer e
escutar como o trabalho deles, que é voluntário funciona em São João Nepomuceno
e a dificuldade de se livrar das drogas.
Os entrevistados são: Marcelo Lamas
(Projeto “Nova Vida” da Igreja Metodista Nova Jerusalem, do bairro Santa Rita),
Anderson Amaral (Grupo de Apoio aos dependentes químicos e Amor-Exigente da
Associação Divina Misericórdia – Igreja Católica) e o ex-usuário que vamos identificar
no depoimento como M., para preservar sua identificação.
O lado sombrio das drogas.
Um depoimento de quem venceu o crack
M. tem 31 anos de idade. É
de Juiz de Fora, há quatro anos venceu as drogas e hoje voltou a morar com a
família, onde terminou o 2º grau, entrou na faculdade de Sociologia na UFJF e trabalha
em um escritório.
O entrevistado em questão, chegou a ser personagem de uma
matéria televisiva nos tempos deste jornalista na TV Alterosa. “Eu tinha 14
anos de idade quando comecei a beber cachaça e cerveja. Foi escondido na praça
de meu bairro com amigos. Na época, com aquela idade tudo era legal e novo pra
mim, e a gente sem maturidade cai de cabeça. Empolguei e passei a beber vodka
pura, mais forte né! E fui aumentando na bebida. Meus pais já começavam a
brigar comigo, mas já estava com o demônio no corpo. Alguns meses depois fumei
o primeiro cigarro de maconha, daí a cocaína, e outras e outras drogas, até o
fundo do poço, o crack, quando tinha 19 anos.
É muito duro falar disso, mas sei
que alguém pode ler a minha história e não vacilar como eu. Na época do crack
sai de casa, não tinha como viver com a minha família, só a pedra interessava.
Foram quase oito anos com essa maldita droga, vagando pelas ruas, sem rumo e
sem vontade de fazer nada. Eu lembro de olhar meus amigos de infância indo para
escola, clube, bem vestidos e cheirosos com perfumes, namorando e eu ali. Perdi
o contato com a minha família. Eu sabia que estava acabando com a minha vida,
sabia que tinha que mudar, mas não conseguia. Não alimentava, perdi muitos
quilos e fiquei esquelético, os meus lábios ressecados e machucados.
O crack
estava comendo meu corpo e sugando a minha alma, cara! Dormia em casas
abandonadas e vi muitos crimes. Furtei para sustentar meu vício. Um dia, uma
coisa, uma força fez com que voltasse a minha casa e chorando pedi a minha mãe
para me ajudar. Foi quando ela foi na TV e lá indicaram a Fazenda Esperança.
Fui internado, não consegui na primeira vez e voltei para as ruas. Depois
voltei pra fazenda e graças ao nosso Deus, eu me libertei das drogas e nasci
para uma nova vida depois que sai de lá. Fui acolhido pela minha família,
voltei a estudar , arrumei um emprego, estou noivo e todas as semanas vou até à
fazenda passar meu testemunho. Muito agradecido por que fizeram por mim. Para
sempre!"
Grupos de Recuperação:
Dois grupos religiosos de São
João Nepomuceno preocupados com a saúde e cidadania de usuários de drogas e
bebidas alcoólicas estão empenhados em realizar encontros e reuniões para
recepcioná-los e também familiares para orientações religiosas, psicológicas e
sociais.
Há três meses, o Projeto “Nova Vida” da Igreja Metodista Nova
Jerusalém recebe cerca de 20 pessoas nas reuniões e pretende daqui a 30 dias
iniciar tratamentos e estadias para até seis dependentes, em um sítio, que já
está em reformas, localizado próximo a “Ponte Nova”. As reuniões deste projeto acontecem
todas as sextas-feiras, às 19h30 na sede da Igreja no bairro Santa Rita.
Em
conversa com um dos coordenadores do “Nova Vida”, Marcelo Lamas explicou.
“Sobre o sítio, é um projeto que tenho a parceria do Sebastião Sérgio Rodrigues, “o
Paraná” e outros amigos. Vamos começar pequeno, pois teremos custos de
monitores, psicólogos, manutenção do sítio como luz, água, alimentação e de
início temos condições de sustentar essas seis pessoas. Não temos rendas extras
como patrocinadores, convênios com órgãos públicos, etc. Reunimos e cada um colabora com o que pode. A
ideia é de começar, depois a coisa vai crescendo, as pessoas interessando e aí
sim aumentar”, comentou.
Já Anderson Amaral, do grupo de recuperação da
Associação da Divina Misericórdia da Igreja Católica, que por 9 anos atua na
cidade informou que os encontros com os dependentes químicos acontecem nas
terças-feiras, às 19h30, e o grupo Amor-Exigente para os familiares nas
quartas-feiras, também às 19h30.
“Nos casos que necessitam, nós ajudamos no
encaminhamento para internação, conseguindo o local, providenciando a vaga e
oferecemos também atendimento psicológico e suporte dos grupos de oração na
religiosidade. Hoje atendemos em torno de 10 pessoas e quatro delas já estão
internadas. Todos estes são usuários de crack e álcool e estão na: Fazenda da
Esperança, Missão Belém e Resgatando Vidas”. Questionado sobre ajudas
financeiras para o projeto, o diretor Anderson explicou: “As verbas vem de benfeitores
que contribuem mensalmente com um carnezinho na quantia que puderem. Além de
eventos que promovemos para arrecadar fundos e alguns patrocínios. Neste ano,
saiu uma verba do governo municipal, mas que não recebemos totalmente, por
conta do bloqueio financeiro”.
Tanto Marcelo Lamas do Projeto
“Nova Vida” e Anderson Amaral do Grupo de Recuperação da Divina Misericórdia, a
religião e a fé são essenciais para a busca da libertação das drogas.
Independente da Igreja, ou do credo, o importante é o trabalho para o bem das
pessoas, podendo auxiliá-las e ajudá-las.
Mas, a tarefa é difícil e é preciso
persistir. “Eu saio pelas ruas e convido alguns que vejo perdidos por aí. Uns
vem e outros não. Alguns não voltam mais, outros retornam. Têm pessoas que
querem ou não querem mudar. Eu uso meu testemunho nas reuniões. Hoje, graças a
Deus sou um homem casado, tenho filhos, frequento a igreja e estou liberto
dessas coisas. Tive na minha adolescência, a infeliz experiência com as drogas.
Foi ruim, minha família sofreu, mas consegui sair e melhorar minha vida”,
revelou Marcelo que ainda disse que em média, o índice de recuperação dos
dependentes é baixo, e quando conseguem libertar uma pessoa é recompensador.
Anderson também citou da importância de não só tirar os usuários das drogas,
como também fazer com que eles não consumam mais.
O recomeço e retorno para a sociedade
Nessa semana, o Coronel reformado
do Exército Brasileiro, Aureo Júnior, um dos financiadores do “Lar Vale da
Benção”, um hotel fazenda localizado em Conceição do Rio Verde, no Sul de Minas
Gerais, que atende 25 ex-usuários (drogas e álcool), sendo cinco deles de São João Nepomuceno desabafou em uma rede social sobre a questão da ressocialização
dos ex-dependentes químicos:
“Percebo que infelizmente ainda tem muito
preconceito com ex- dependentes químicos. O nosso Governo pouca coisa faz, não
existem Programas e Projetos eficazes na recuperação por parte governamental.
Não adianta se as Instituições Particulares realizarem um trabalho maravilhoso
de recuperação se a família e a Sociedade não fizerem sua parte. O ex-usuário quando
termina o tratamento tem que ser recebido com todo o amor e carinho e ter todo
apoio possível. Ele também tem que ser integrado à sociedade, e a melhor
maneira pra que isso aconteça é ter a oportunidade de trabalhar. Por isso peço
aos empresários de São João Nepomuceno e de todo o país que deem oportunidades
para eles e estarão ajudando a eles, suas famílias, a sociedade, sua cidade e
seu país”, finalizou.
Márcio Sabones
(Matéria assinada por este jornalista no Jornal Voz de S. João,
edição 5485 de 26/11 a 02/12 de 2016)
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