Blog do Sabones - Expediente

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terça-feira, 3 de março de 2009

"Do tempo da vergonha" (Por Marta Medeiros)

A gente costuma dar referências do "nosso tempo", como se o nosso tempo não fosse hoje. Sou do tempo do tênis Conga, da Família Do-Ré-Mi, da Farrah Fawcet, do Minuano Limão, e essa listagem alonga a estrada atrás de nós, faz parecer que somos de outro século. E somos.Eu sou do tempo de tanta coisa, inclusive do tempo em que as pessoas sentiam vergonha.

Você já deve ter reparado que a vergonha caiu em desuso, a nova geração não deve nem saber do que se trata. Mas a tia aqui vai explicar.Vergonha é o que você sente quando coloca em risco a sua dignidade. Por exemplo, quando pegam você mentindo. Ou quando flagram você fazendo uma coisa que havia jurado não fazer. Às vezes, a vergonha vem de atos corriqueiros, como um tropeção no meio de uma passarela ou uma gafe cometida num jantar. Isso não tem nada de grave, porém, se faz você sentir vergonha, sinal de que planejava acertar, o que é sempre bom.Vergonha de ser apresentada a alguém? De falar em público? Também é bobagem, ninguém espera de nós perfeição.

Isso é apenas timidez. Será que quem nasceu depois dos 80 sabe o que é timidez? Bom, timidez é um certo recato, é quando uma pessoa não faz questão nenhuma de aparecer. Não ria, isso existe.Mas voltando ao que nos trouxe aqui: vergonha é o que você deveria sentir quando faz algo errado. É o que deveria sentir quando se desresponsabiliza pelo que está desmoronando à sua volta. Vergonha é quando você se habilita para uma tarefa importante e descobre que não tem competência para executá-la. Vergonha é o que se sente quando interferimos na vida dos outros de forma desastrosa.

Vergonha é o que deveria nos impedir de praticar atos aparentemente inocentes, como chegar atrasado ao teatro quando a peça já começou, e nos impedir de coisas bastante mais sérias, como roubar.E há a vergonha sem culpa, a vergonha pelo que representamos coletivamente. Eu, ao menos, senti muita vergonha quando uma turista estrangeira, depois de ficar dois dias confinada num aeroporto brasileiro, sem conseguir embarcar, perguntou a um repórter o que significava o lema "Ordem e progresso" na nossa bandeira.

Muitos políticos (para citar uma classe trabalhadora aleatória) não têm vergonha. Possuem contas no exterior, assessores de marketing, mas vergonha, nenhuma. Posam para fotografias ao lado daqueles de quem já xingaram a mãe e aceitam o apoio de adversários que já lhes puxaram o tapete. Quando se trata de fazer alianças, a política, de um modo geral, revela-se um bordel, e perdão se estou ofendendo as profissionais do ramo. É bem verdade que restam dois ou três que têm a decência de dizer: prefiro não me eleger a jogar no lixo meus princípios.

Mas para se posicionar assim, é preciso ser do tempo da bala azedinha vendida em lata, do tempo do "Boa noite, John Boy", do tempo dos Novos Baianos, do tempo em que Páscoa significava ressurreição e do tempo em que existia vergonha, coisa que quase ninguém mais sente, poucos lembram o que é e ninguém se esforça para reavivar.

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