Blog do Sabones - Expediente

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quinta-feira, 8 de julho de 2010

A platéia no Teatro Brasileiro

Hoje publicarei em meu blog uma reportagem que fiz no tema da platéia no teatro brasileiro, desde já agradeço a vários amigos do meio, que cederam depoimentos sobre o assunto, enriquecendo nosso material. Vale a pena a leitura.

Uma das mais antigas platéias da história, desde a Grécia Antiga o teatro encantou e encanta bilhares de pessoas em todo o mundo por mais de 2000 anos. Atenta para as revelações e desfechos de inúmeras histórias, a platéia de crianças, senhoras e senhores aplaudem obras milenares que até os dias atuais são representadas em diversos palcos do planeta. No entanto, nossa reportagem propõe um tema que busque um perfil para a platéia do teatro brasileiro, no que ela procura e sua participação.

Historicamente, há uma tentativa dos “fazedores” teatrais no Brasil em resgatar a platéia perdida com a elitização ocorrida depois da década de 60. O Regime Militar teve papel fundamental nesta mudança quando impediu as produções com linguagens mais populares e próximas da realidade brasileira naquele período, fazendo com que o teatro se distanciasse da população de renda mais baixa no país.

Os anos 70 e 80 talvez pela situação política e financeira, abriram espaço para as grandes e caras produções, promovendo desta forma a diminuição de público, a dificuldade ao acesso para as camadas menos privilegiadas e disseminou a idéia de que teatro era uma arte para os ricos. Foi neste período também, que tão logo percebida a falência de público nos espetáculos, começaram as campanhas das “kombis” os movimentos federativos, de grupos etc; na preocupação de novamente “a curto prazo” popularizar a arte.

Os artistas de teatro, principalmente os fazedores dedicados à arte teatral pura, no caso os mais prejudicados com a crise, viram esvaziar os seus teatros e bolsos, impedindo em muitos casos a continuidade do trabalho. A ascensão da televisão e a multiplicação deste aparelho em todos os lares também “prendeu” em suas poltronas domésticas o expectador do teatro e em seguida a evolução técnica com vídeo cassete, DVDs entre outros,fatores que levaram à decadência do público teatral, sem entrar nos detalhes da queda da qualidade dos trabalhos, que sem dinheiro, sem investimento, sem políticas públicas para a cultura e sobretudo sem motivação dos seus fazedores, também não favoreceram na questão de preservar ou aumentar a platéia.




Pontos de Vista – Progresso e as pedras no caminho



“No Brasil, infelizmente, algumas pessoas costumam dizer que cultura é privilégio de ricos; e pobre gosta de futebol e fofoca. Tolice pura! Estamos caminhando para uma platéia mais diversificada e crítica”. Observa Carla Lins – professora de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela confirma a presença de pessoas das mais variadas classes sociais em eventos teatrais em todo o país. Afirma que estamos progredindo, “a platéia está aprendendo não só a assistir espetáculos, mas como se faz teatro”. Atualmente o artista sobe no palco com a cobrança de uma platéia mais atenta e exigente.

Promoção de festivais e popularização do teatro, como exemplo, Juiz de Fora, que por alguns anos abraça esta causa, dá possibilidade a todos os seus cidadãos assistir diversos estilos teatrais, julgamento e formatação do espetáculo (montagens de cenários, iluminação e etc) com preços acessíveis. e até mesmo gratuitamente. Isso ocasiona um maior conhecimento à platéia, deixando-a familiarizada com os atos e interpretações.

Poucas são as pessoas que possuem olhar técnico num espetáculo, no entanto, encontramos algumas “figuras carimbadas”, que possuem uma visão crítica, tais como artistas, diretores, produtores e agora algumas pessoas que pagam seus ingressos. “Não é por causa de dinheiro, o teatro esta ao alcance de todos com preços bem interessantes, o que falta é a platéia aderir às artes cênicas como um costume”.

De outro lado, nossa reportagem conversou com o ex-Secretário de Cultura e também organizador do FACE (Festival de Artes Cênicas) de Conselheiro Lafayete, o Sr Geraldo Lafayette, que acrescenta: “Atualmente no Brasil temos dois perfis de platéia. A platéia que paga pra ter uma opção de lazer e que está principalmente nas grandes cidades onde as produções são feitas através das leis de incentivo, do investimento de grandes empresas e com atores, atrizes, diretores e técnicos um tanto mais preparados para produzir o que está no gosto do público brasileiro. Teatro cheio ou tem algum ator “global”, ou cenas de sexo explicito, gente nua, ou peças onde o “besterol” corre solto, sem nenhum critério, sem nenhuma função, que não fazer rir e ocupar uma ou duas horas daqueles que pagam para assistir a sua própria ridicularização” - uma platéia menos exigente.

Um outro perfil ainda bem menor, é aquele que busca no teatro a expressão de vida ou da vida que lhe é peculiar. Nas grandes cidades poucas produções neste sentido. E estas poucas, acabam “morrendo na praia” com pouca vida útil, uma vez que atrair público que a banque é quase impossível.

Tem a platéia das chamadas “campanhas de popularização” onde fica possível avaliar o que a ela gosta de ver. Paralelo esta classe, colocamos também o público no interior, que tem perfil ligado ao público do país, porém há tempos está cerceado de bons espetáculos, uma vez que não é vantajoso pra uma companhia, viajar por cidades onde os espaços estão abandonados, sem estrutura e com muito pouca sensibilidade de apoio e participação neste tipo de atividade.

Resistem em algumas cidades, grupos que “garimpam” um público com suas produções parcas, pobres, amadoras que mesmo não tirando seus valores, colocam em risco o resgate da platéia que muitas vezes principiante, julga o teatro pela única peça (ruim) que vê. Daí não volta mais. E neste ponto julgar quem? Quem é o culpado? O melhor seria não fazer? Ou fazer melhor? E neste último caso, fazer melhor como? Com que informação? Com que recurso?

E no final desta produção, quanto tempo dura uma temporada de uma destas peças produzidas no interior, com a platéia que uma cidade de 30, 40 mil habitantes tem? Enfim, o perfil da platéia brasileira é este. Um povo que ainda não conhece o Teatro que tem ou o Teatro que pode ter.



Vá ao teatro



Como atrair a platéia? Em tempos de televisão e internet, é preciso buscar alternativas e vencer as altas tecnologias. Até então, é relevante indicar o interesse da platéia para um espetáculo que lhe traga uma troca, ou seja, conteúdo, diversão ou até mesmo os dois.

Como indicar o perfil da extensa platéia brasileira? Em contato com várias pessoas da área, notamos que é unânime indicar uma platéia com tendências televisivas. O uso de atores e atrizes famosos. Inclusive, alguns espetáculos tornaram-se televisivos, exemplo de Sai de baixo e Toma Lá, da cá da Rede Globo de Televisão. É lógico que não podemos afirmar que 100% da platéia tem esse interesse, mas uma boa parcela dela sim.

Segundo o produtor da Cia Ribalta de Atores da cidade de Juiz de Fora, Mário Galvanni, o que atrai a platéia ao teatro vai além. Um público intelectualizado, que aprecia um espetáculo de qualidade (técnica, cênica), que tenha uma sensibilidade aguçada e análise cultural e profunda, conforme a proposta do espetáculo, tem um acompanhamento ímpar (pontual, interessado, atento e crítico). Há aquela platéia, que busca a diversão, o entretenimento, o relaxamento, o que torna um trabalho bem comercial para uma Companhia ou Grupo de Teatro. Ir ao teatro, requer uma conquista, um interesse.

Trazer a platéia para o teatro é o grande objetivo de todos os produtores. Um grande grito do teatro são as peças de rua, em sua maioria apresentadas em praças das cidades. O uso de pernas de pau, palhaços e lindas histórias atraem crianças e adultos. Na cidade de Espera Feliz, interior de Minas Gerais, existe um festival de teatro de rua, que leva o nome do ator Stênio Garcia. De forma gratuita as pessoas degustam os trabalhos dos mais diversos grupos do estado.

A platéia é atraída pela propaganda. Anúncios, um excelente material, colorido, chamadas em rádios, jornais, internet e até mesmo em TV, se possível. O principal é a montagem de um excelente espetáculo, independente de seu estilo. “Nada impede que a platéia se divirta assistindo Shakespeare. Desde que a montagem tenha isso como objetivo. Quem tem que pensar é o ator, ou o fazedor de teatro. Ao pensar num texto, num espetáculo, pense antes em para quem você quer montar. Não faça teatro para você. Faça para quem vem assisti-lo” – Carla Lins (Professora Artes Cênicas UFRJ).

“Acredito que nós temos gente pra ser platéia de qualquer estilo ou categoria. Crianças por exemplo, deveriam ser platéia de infantis. E acredito nesta categoria como uma mola propulsora para se construir uma nova platéia futura. A geração que hoje representam os pais das nossas crianças, é filha de um período de estagnação do Teatro Brasileiro, principalmente nas cidades do interior. Cabe aos privilegiados atores atuais, ganhar ou criar oportunidades para que as crianças de hoje se tornem a nossa platéia de amanhã. E aí, está em nossas mãos escolher pra elas, as crianças, o estilo que apreciarão mais tarde. Se nossos infantis forem produzidos de forma irresponsável, sem compromissos pedagógicos, didáticos, sociais, literários, morais; nossas crianças serão platéias dos espetáculos vazios, descompromissados com o conteúdo e a técnica” – Geraldo Lafayette – diretor CLIC – Cênico Literário – Cons Lafaiete- MG



Enquete


Nossa reportagem foi ao centro de Juiz de Fora e perguntou a diversas pessoas sobre a popularização do teatro.
- Você acha que o teatro está popularizando?
Responderam que sim 74%
Responderam que não 26%

Expedito de Assis, 57 anos, auxiliar de saúde.
Sim. Freqüento os espaços culturais de Juiz de Fora e vejo que o público tem crescido muito.

Paulo Henrique de Oliveira, 40 anos, comerciante.
Sim. Sempre vêm bons grupos se apresentarem aqui.

Marceli Silveira, 22 anos, estudante.
Sim. O preço é bacana e sempre que posso venho com as amigas.

Claudio Eduardo da Silva. 27 anos, representante comercial.
Não. Ainda falta atingir a periferia.



A platéia – 7 minutos


Um espetáculo que pode explicar um fio da atual platéia brasileira é a comédia de Antônio Fagundes,”7 minutos”. Trata de uma comédia divertidíssima e inteligente sobre uma noite em que algumas tosses interrompem a peça Macbeth de Shakespeare. Possuído, o ator já velho de carreira, resolve fazer um acerto de contas com a platéia, o que não vai ser fácil. Elenco e espectadores partem para um insólito embate em que o que está em questão é o amor ao teatro e as diferentes formas de vivê-lo.

De repente, um Macbeth interrompido... o ator irritado “vira a mesa”, denunciando o público sem pena e nem pudor enquanto conta um pouco da história do teatro, da realidade da televisão e da tristeza que cabe nos nossos sete minutos de cada dia. Quem nunca ficou irritado com os "pequenos" barulhos e interrupções que fazem parte da platéia em um espetáculo? Celular, papel de bala, conversas, tosses, alguém chegando atrasado... uma lista interminável. E, se você se incomoda, imagine quem está no palco! Segundo o próprio autor, Antônio Fagundes, relatado no DVD do espetáculo (2002, Globo Filmes), tudo o que ocorre na peça é baseado em fatos acontecidos com ele.

O espetáculo foi interpretado recentemente pela Atuar_te – Cia Teatral da Universidade Federal de Viçosa no 5º Festival de Teatro de São João Nepomuceno e recebeu 7 prêmios, entre eles, o segundo lugar geral e melhor espetáculo pelo Júri Popular. Interessante, a platéia, alvo do espetáculo, deu ao grupo umas das principais premiações do evento. Na saída do teatro, perguntamos a platéia sobre a peça, as respostas em sua maioria indicaram tratar de um espetáculo divertido e de muita reflexão.

A Sra Dalila Freitas, 62 anos, aposentada, gostou muito do que assistiu e assumiu que já cometeu vários escorregões citados em “7 minutos”. “Foi uma prestação de contas com a platéia, o ator (Fabrício Henrique) é excelente e passou o texto de uma forma clara e sem ofensas. De certa maneira fiquei envergonhada, não estamos na sala de casa, deitados no sofá, comendo biscoitinhos e com o controle remoto na mão, é arte, é teatro. A platéia faz parte disso tudo. Aprendi que se comportarmos a altura do espetáculo teremos o melhor – disse Dalila à nossa reportagem.

Fabrício Henrique disse que depois de interpretar “7 minutos” percebeu a verdadeira função de uma platéia. Confessa nunca ter dado muita atenção a esse fato e que acreditava ter uma quarta parede entre o palco e as cadeiras do teatro. Mas confessa que o espetáculo é tudo, inclusive a platéia. “É dela que se tem o retorno, não somos TV que medimos audiência, somos teatro, sentimos emoções que vem de nosso público.

A nossa proposta é ajudar o teatro, não somente nossa apresentação. Queremos que todas as pessoas que nos assistem aprendam um pouco e usem as boas maneiras de comportamento de platéia para o resto de suas vidas". – disse Fabrício Henrique Figueiredo, ator e diretor Atuar_te – Cia Teatral (UFV).



Conversa




Conversamos com Wesley Azalim, encarregado do Pró-Música (Juiz de Fora) e discutimos alguns assuntos sobre platéia. Ele enriqueceu nossa reportagem passando sua experiência naquele espaço cultural.

Qual é o estilo teatral que tem recebido o maior público?
Wesley - Com certeza é a comédia.

Qual é o comportamento dessa platéia?
Wesley - muito bacana, é cada vez mais jovem e participa quando é proposto.

Este espaço participa da valorização do cinema?
Wesley - Sim. Sempre a partir de janeiro começa a campanha de popularização do teatro pela prefeitura e este espaço é cedido.

Que tipo de público freqüenta mais o teatro atualmente?
Wesley - Olha, depende da peça e do espaço. Aqui o povão tá freqüentando mais, pois, o preço é sete reais, bem acessível.


A platéia é quem manda


Improvisos. Nos últimos anos, o improviso tem sido um novo estilo apreciado por várias platéias no Brasil e no mundo. O público exerce interrupções e opiniões para aquilo que será apresentado, com escolhas de temas e participações nos palcos. A idéia começou em barzinhos, restaurantes e hoje ganhou palcos de todo o país. Carla Lins afirma que muito do sucesso dos improvisos devem aos avanços tecnológicos, TV’s Digitais, Internet no qual o usuário tem o domínio total das ações a serem seguidas. O fato de escolher o que se quer, remete a platéia um bem estar na escolha de temas e situações. Mas o lado negativo desse estilo é o excesso de liberdade proposta pelos artistas, fazendo com que o espetáculo perca qualidade, apresentando palavrões e babozeiras intermináveis. Enfim, uma perda irreparável de tempo e intelectualidade para a platéia.

“Desconsidero improvisos e stand’up como teatro. É preciso ter técnica avançada de improviso e muito “time”, é elogiável, mas em termo de arte, fica longe do que esperamos assistir”. – Lucas Menezes – diretor Cia Teatral Rastro dos Astros – Ubá MG.

O estilo traz muitas pessoas para as platéias, inclusive existem programas de TV em canal aberto. A Rede Bandeirantes apresenta "Tudo é improviso" com um auditório bem animado, banda musical e um programa repleto de brincadeiras. É bem aceito por parte de um público jovem, em média de 15 a 30 anos de idade. E a audiência da emissora é satisfatória no horário.

"Temos uma platéia sem definição. A cada lugar que apresentamos em Juiz de Fora e região encaramos uma platéia diferente. Ficamos ansiosos para saber o que eles realmente procuram e às vezes nem descobrimos. Gosto de fazer os espetáculos em teatros, pois em bares e restaurantes nos deparamos com pessoas embriagadas e conversando junto com a nossa apresentação". - disse Fabrício Sereno, ator e diretor do Grupo Improvício de Juiz de Fora.



Aplausos



De alguma forma o povo brasileiro convive com as dificuldades todos os dias e sendo o “Teatro - o duplo da vida”, muitas vezes as pessoas não gostam de se ver novamente e trazer pra si o reflexo de todas as suas angustias. Este fator leva a crer que a maioria do público teatral prefere assistir às comédias onde o pensamento e o raciocínio não são forçados e não sai do teatro pensando em como dar continuidade à sua vida. O que deveria acontecer. Mas, é preciso dizer que quem faz a sua platéia é o ator, o diretor, o produtor, então é possível achar na vida do brasileiro muitas coisas boas, bonitas, alegre, divertida, feliz e importante. Miremos em nossa literatura, nas nossas cidades, nas nossas histórias, na nossa música. Por que o Teatro precisa ser banalizado? Tem como fazer a platéia brasileira se encantar pelo Brasil e por si mesmo; o segredo da platéia está no “como” transpor para o palco, a cena brasileira. A platéia quer ver o seu poder de Teatralidade. Se o espetáculo for bom, teremos platéia pra ele.

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