Blog do Sabones - Expediente

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Cultura: Violão, um instrumento que tornou símbolo da Música Popular Brasileira

Essa semana dei uma mexida em meus trabalhos antigos de faculdade e achei um interessante texto que elaborei junto ao colega de classe Rafael Albuquerque da leitura do texto “Violão e identidade nacional” de Márcia Taborda sobre o violão, sua história e transformação como um instrumento musical que tornou símbolo da música popular no país.

Na ocasião, o livro estava na programação do curso de Estudos Culturais, uma das matérias curriculares da minha graduação em Comunicação Social. O texto faz com que o leitor busque no imaginário da população brasileira e questione sobre o violão e sua trajetória. Vale conferir:

Foto: internet
O violão, as respostas são sempre semelhantes no que referem tal instrumento a uma identidade nacional e não são apenas iguais, mas que contribuem para a construção de uma comunidade que existe apenas para brasileiros e são partilhados das mesmas experiências próximas.

Primeiro sobre o violão temos de colocar que ele não é um produto nacional (o instrumento em si) e nem sua origem que é espanhola (com o povo cigano), mas o que o fez se tornar nacional em terras brasileiras foi a sua aceitação e difusão em meio a sociedade, em segundo e talvez até mais impactante e chocante é que o violão nem sempre teve esse tipo de visão positiva ou nacionalista como um instrumento que se identifica com o brasileiro. Essa questão é muito mais ampla do que o imaginário sobre o instrumento nos mostra.

Vale lembrar que o violão por muitos anos foi rotulado de “coisa de malandro”, de “desocupados” e de “populescos”, distante do então sofisticado som de um piano ou violoncelo que determinava a musicalidade apreciada em salões da então capital Rio de Janeiro. Não era visto, adorado ou entendido pela classe A como um instrumento de música erudita.

Diante da história, várias questões frente a este instrumento. Na música, a análise de que sempre haverá a discussão sobre os tipos de cultura e musicalidade, esta como uma expressão cultural que separa a erudita com a popular; e como já citado anteriormente, o violão quando surge no Brasil, em especial na capital carioca em periferias e mal classificado e taxado pela elite cultural, não se tratava de um instrumento clássico de concerto, e sim um instrumento das massas e da boemia e logo com a vinda mais forte da música erudita, o violão foi um alvo a ser marginalizado pela sociedade mais rica no Brasil.

Assim como o samba que surge mais tarde nos morros do Rio de Janeiro, e que traz consigo uma música originalmente brasileira, sem intervenções ou até mesmo cópias das ricas letras e partituras européias, faz com que tanto o violão, quanto o samba tem em comum uma forma diferente e particular de fazer e ouvir música no Brasil, mas com a identidade brasileira. Assim como foi classificado o mestiço no século XIX de o verdadeiro e legítimo perfil do brasileiro, mas que ao mesmo tempo era distanciado dos brancos que compunham a elite social do país, o samba e o violão eram distanciados por uma cultura copiada e seguida a fio por brasileiros, de ser e ter as normas européias como a legítima.

O violão não era um instrumento erudito, por isso qualificado
como "coisa de malandro" (Imagem: Internet)
A partir deste novo quadro pode e deve ser discutido o que fez com que o instrumento tão estigmatizado, relacionado a malandragem e a boemia pudesse fazer parte de um imaginário nacional brasileiro. Imaginando nas pessoas que tocavam esse instrumento e as que o rejeitavam de maneira preconceituosa, de uma forma geral conclui-se numa separação nítida entre a música erudita que era ensinada e que fazia parte da educação e a musica popular que era uma expressão passada para frente sem nenhum tipo de pré-preparo ou estudos para o mesmo.

A questão é que apesar de haver essa separação ela não é completa, e sendo assim, muitos músicos eruditos olharam para o violão com bons olhos por gostarem de uma música popular assim como alguns músicos populares que acabaram obtendo algum acesso a música erudita e perceberam nela e no próprio violão uma forma de dialogar.

Catullo Cearense, autor de "Luar do Sertão" e Heitor Villa Lobos (Foto: internet)
Dois exemplos da situação anterior são o Catullo Cearense e Heitor Villa Lobos. Catullo que era um músico popular que se utilizava constantemente do violão a partir de uma proximidade da erudita e fez com que tal instrumento adentrasse aos grandes salões e em momentos posteriores de sua carreira como músico chegou a ingressar no Instituto Nacional de Música, desta forma valorizando o instrumento, tornando alvo de estudos e aprimoramento entre os músicos da época.

De outro lado, o maestro Heitor Villa Lobos, músico com origem no erudito e que viu no violão uma chance de fazer novos tipos de arranjos para a música clássica. O encantamento de Villas Lobos refletiu na elite cultural brasileira que passou a dar uma chance para aquilo que julgavam ser coisa de malandro. E logo teve seu espaço nos principais salões da capital Federal e das emissoras de rádios.

A partir desses dois momentos, a “separação” que existia começa a se romper e a aceitação do violão acontece entre a elite de forma natural.  O violão ganha seu espaço e começa a ser visto como o instrumento tipicamente brasileiro, pois foi um momento necessário de auto-afirmação da cultura nacional. O Brasil, com seu violão passa a produzir músicas com sua identidade.
Yamandu Costa, um dos maiores violonistas do país (Foto: internet)

Ícones da música brasileira: João Bosco, Tom Jobim, Djavan e Gilberto Gil (Foto: internet)
Além dessa diferença, entre as pessoas e os espaços musicais e culturais que as mesmas ocupavam, a popularização do violão vem forte com relação as grandes festas e as músicas tocadas nestes mesmos eventos. No carnaval dos salões cariocas e repletos de máscaras venezianas e marchinhas, nota que o samba está muito próximo a mesma transformação, e que este ritmo tinha como um de seus grandes instrumentos bases, o violão, e um ritmo que não faz referência aos grandes salões de música clássica, mas que atinge aquelas pessoas muito fortemente naquela época do ano.


O violão se tornou uma expressão da cultura brasileira em meio a muitos conflitos e preconceitos da música nacional e adentrou a comunidade imaginada que temos no Brasil atual, mas que com influências tanto de músicos populares e eruditos, o violão se consolidou no Brasil e é hoje talvez o instrumento mais tido como nacional.

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