O Blog do Sabones disponibiliza a matéria assinada por este jornalista no jornal Voz de S. João, edição nº 5450 de 26 de março de 2016. Destaque da página 03.
Uma das entradas do parque em São João Nepomuceno |
No último fim de semana, o
prefeito Célio Filgueiras Ferraz em entrevista para veículos de comunicação local
informou que não terá a tradicional Exposição Agropecuária de São João
Nepomuceno que seria realizada no mês de maio em sua 43ª edição.
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Prefeito Célio Ferraz |
Será o segundo ano consecutivo
sem uma das maiores festas do município que comemora a data de aniversário e do
Santo Padroeiro da cidade. O prefeito disse que tanto o ano passado e este ano,
as condições financeiras do município perante a atual situação econômica do
país e as exigências feitas pelo Corpo de Bombeiros para reformas e
determinações a serem feitas no Parque de Exposições Hercílio Ferreira foram os
motivos pela não realização do evento. “Para as reformas, instalações e demais
exigências feitas pelos Bombeiros trariam gastos no valor de cerca de R$
150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) aos cofres públicos municipais, isso
além da organização do evento que não é barata; a Prefeitura não tem condições financeiras
para organizar. O que o Corpo de Bombeiros está exigindo eu acho que é jogar
dinheiro fora e não tenho dinheiro pra isso! É um absurdo que vem exigindo em
toda Minas Gerais”, explicou.
A assessoria do 4º Batalhão dos
Bombeiros Militares (BBM) de Juiz de Fora, responsável pelo atendimento à
cidade, informou que o local precisa das medidas indicadas pelo setor de
Vistoria e Prevenção e que sem elas o parque de exposição não está liberado
para realizar eventos. Isso ocorre desde uma vistoria em novembro de 2014.
Pátio do Parque de Exposições Hercílio Ferreira - SJN |
Em contato com a Secretaria
Municipal de Obras e a Assessoria de Comunicação da Prefeitura foram passadas a
nossa equipe as exigências do projeto. São elas: Troca de toda a parte elétrica
do parque de exposições, retirada da antiga e a instalação de cabos isolados e
encapados em todo o parque, instalação de um transformador, etc; manutenção e
consertos da rede de esgoto e água; aplicação de acessibilidade em todo o
parque (evitando degraus, banheiros adaptados, rampas, corrimão); sinalização
(indicação de saída, iluminação, placas), rotas de fugas, portões com aberturas
para a parte externa do parque, extintores de incêndio, adaptações, reformas e
atualizações de medidas das baias dos animais.
Um orçamento feito em março de
2015 pela Secretaria Municipal de Obras para a compra dos materiais da rede
elétrica foi apresentado a nossa reportagem, o valor somado é de R$ 142.546,60
(cento e quarenta e dois mil quinhentos e quarenta e seis reais e sessenta
centavos). “Esse valor é apenas do orçamento feito para a compra dos materiais
para uma das exigências na parte elétrica, sem contar as outras determinadas e
os prestadores de serviços”, comentou a diretora da Secretaria de Obras, Suelem
Alves.
Rede elétrica e demais estruturas terão de ser trocadas e reformadas |
Além da verba para as exigências
do Corpo de Bombeiros, a Assessoria da Prefeitura passou-nos os valores da
organização do evento. Com base nos valores de 2014, último ano de realização
da Exposição na cidade, somente para a infraestrutura (dois palcos,
sonorização, iluminação, energia elétrica, banheiros químicos, tendas),
impostos (ECAD), propagandas (impressos, rádios, faixas), animais (alimentação,
transporte, veterinários, premiações), equipe de apoio (seguranças, camarim,
banheiro, eletricistas de plantão) o valor gira em torno de R$ 200.000,00
(duzentos mil reais). Além destes gastos, as contratações de bandas para os
shows durante os 10 dias de festa. Em 2014, por
exemplo, foram mais de 40 shows, sendo locais, regionais e nacionais com um
montante aproximado de R$ 250.000,00 (duzentos e cinqüenta mil reais). Contudo,
os valores citados para atender as exigências, a organização e a contratação de
shows somam R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais).
O prefeito ainda comentou que no
ano passado esteve com alguns deputados na Assembleia Legislativa em Belo
Horizonte para resolver o assunto. “Conversei com os deputados e eles assumiram
um compromisso comigo de levar ao governador Fernando Pimentel uma emenda de
projeto do artigo para que as cidades onde não tem um Corpo de Bombeiros, que a
Defesa Civil liberasse as festas. Consultamos por lá o jurídico e disseram que
é viável e acredito que seria o caminho pra gente realizar a exposição”. O
prefeito disse também que acha exagerada as determinações para o projeto e que
as mesmas deveriam ser revisadas.
Entrevista do Prefeito Célio Ferraz para o Plantão Fatos Net
Reflexos no comércio e com artistas
A Exposição acontece em São João
Nepomuceno desde o ano de 1972 e com esse cancelamento será a terceira vez que
não é promovida. A primeira vez do seu cancelamento foi em 2009, pela prefeita
Dra Edmea Moreira Machado, e o motivo não foi uma exigência do Corpo de Bombeiros
e sim, a crise mundial que atingia os Estados Unidos e Europa. Na época, a
Prefeitura decidiu economizar gastos com receio dos reflexos da crise ao país e
a cidade.
Comércio terá perdas com o cancelamento da Exposição. Rua Cel José Dutra, centro, SJN |
Nossa equipe esteve em contato
com pessoas de diversas áreas de atuação que direta ou indiretamente são
atingidas com o posicionamento de cancelamento da Exposição. Uma delas foi o
ex-presidente da Associação Comercial e Empresarial de São João Nepomuceno
(ACE), associado e empresário no ramo de atacado, Álvaro do Carmo que entende a
postura de economizar por parte da Administração, mas por outro lado cita a
preocupação com as áreas que podem ser atingidas. “A economia é justa, mas qual
o prejuízo que pode causar em diversos sentidos? No lazer, comércio,
indústrias, agricultores, oportunidades de negócios, porque é a chance de uma
mostra de nossos produtos”.
Álvaro comentou sobre o risco de manter por mais
tempo a não realização do evento na cidade. “Devemos caminhar para frente, se
não der, daí estacionamos, mas mantemos o foco. O que não pode é regredir e
parar com a nossa tradição. A Exposição de São João é uma das mais tradicionais
da região. Eu mesmo antes de morar aqui já ouvia falar dessa exposição e de
Leopoldina, eram as mais famosas. A minha preocupação é perder as coisas
pontuais, pois a exposição é referência e a comunidade, o comércio, vestuário,
calçados são prejudicados; e devemos ver também o consumo por parte de um
grande acúmulo de pessoas no parque e fora dele em barracas, parque, bares,
restaurantes e hotéis”.
Calçadão SJN |
O ex-presidente da ACE comentou
que os cancelamentos de 2009 e 2015 prejudicaram o comércio causando quedas nas
vendas. O mesmo foi comentado pela comerciante da área de vestuário e calçados,
Maria Aparecida de Souza que lamentou a não realização do evento. “Para nós do
comércio não é uma boa, pois é uma ótima oportunidade para vendas em meu
segmento. A época de exposição é quando começa a fazer frio e as pessoas vão às
lojas para comprar calças, jaquetas e botas e aproveitam para renovar o
guarda-roupa para curtir a festa”.
Maria Aparecida ainda explicou que nos anos
de 2009 e no ano passado que não tiveram o evento sentiu a queda de vendas. “Em
2009 foi a primeira vez que aconteceu e foi um susto. Não sabíamos como agir e
tivemos muitas mercadorias encalhadas no estoque; no ano passado, o movimento
do comércio já estava devagar, e nem tínhamos tanto estoque por causa disso,
mas contávamos com a Expô pra dar uma melhorada na venda”. Já a comerciante do
ramo de acessórios e papelaria Kyvia Santos analisou como certa a posição do
cancelamento diante dos gastos públicos. “Pra mim foi uma decisão sábia, não
apoiando lado algum da política em nossa cidade, mas seria totalmente
desnecessário gastar uma quantia alta para as reformas do parque segundo o que
o corpo de Bombeiros exigiu. Nossa cidade tem suas prioridades. Não acredito
que vai prejudicar o comércio de forma alguma, ano passado não tivemos a
exposição e todos sobreviveram".
Ainda com Álvaro do Carmo da ACE,
o empresário fez uma importante observação sobre as exigências do Corpo de
Bombeiros. “Estamos numa crise sentida e vista por todos, daí precisamos agir e
vem esse cancelamento da exposição. A interdição ou notificação do parque já
teve tempo para arrumar, pois no ano passado não teve a festa pelo mesmo
motivo. Não teria como ter ajustado aos poucos, gastando em parcelas para as
reformas?”, perguntou.
A nossa equipe buscou uma
resposta para esse questionamento e a informação do diretor do departamento de
Contabilidade, Prestação de Contas e Convênio, Leonardo Araújo Ribeiro é que a
obra só poderia ser feita em sua totalidade, não por etapas. Vale lembrar
também que o parque de exposições já foi alvo por algumas vezes de atos de
vandalismo e furtos nos últimos anos, sendo alguns deles fios de cobres e
refletores.
Local está interditado e notificado desde 2014 |
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Banda Cidade Mídia |
O músico e produtor musical da
banda Cidade Mídia, Thales Vasconcelos disse de como isso pode afetar a classe
artística. “Fico muito triste por mais um ano não
termos a Exposição de SJN. Nossa cidade não tem quase nada de entretenimento, shows,
parque de diversões, etc. Temos tantos talentos musicais
que ficam esperando uma "janela" para divulgar seus trabalhos em um
evento de grande porte com estrutura e também do movimento financeiro que
circula em uma semana de evento, trazendo pessoas de fora e nós mesmos daqui, movimentando
assim bares, lojas, mercados, etc. Mas mesmo assim respeito a posição do
prefeito. Só lamento não ter outro jeito”, concluiu.
Ainda
na área artística, a artesã Maria Lila Caçador também lamenta o cancelamento.
“Muito triste, vamos ficar sem mais um evento. A exposição Agropecuária
Artesanato |
é de suma importância para o município. Como recebemos muitos visitantes,
vários setores de nossa cidade são beneficiados, o dinheiro circula e o fluxo
de vendas aumenta”, exemplificou e também comentou do artesanato na festa. “Quanto
ao espaço para o artesanato, é uma forma de mostrar nosso trabalho, são poucas
vendas, mas uma ótima oportunidade de divulgação. É uma pena porque temos
trabalhos bacanas na ARTECA e são poucos valorizados, acho que São João não tem
a cultura de comprar artesanato, tipo "santo de casa não faz
milagres".
Por Márcio Sabones
Fotos: Márcio Sabones
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